Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Intimidades Reveladas



Domingo, 12.07.15

O romance não tem necessariamente de envolver sexo

Eram palavras que eu não esperava ouvir do meu terapeuta: "Eu não acredito que uma pessoa possa ser assexual." Apenas duas semanas da minha vida depois de me ter identificado como pertencendo ao grupo das pessoas assexuais, eu já estava a enfrentar aquela velha reação a qualquer ato de autoidentificação: a resposta "não faz sentido". Normalmente fujo do conflito, mas neste caso tive de bater o pé no chão.

"Eu vou ter de discordar", disse.

Mas é fácil de fazer prevalecer a opinião do meu terapeuta. Filmes, livros e programas de televisão glorificam rotineiramente o sexo como a quinta-essência, o principal indicador de que um relacionamento romântico é sério e de que o amor está presente.

Em Como Perder um Homem em 10 Dias (sim, eu sou louca por uma boa comédia romântica), as duas personagens principais - uma que entra na relação por razões de pesquisa jornalística, a outra por causa de uma aposta - fazem sexo imediatamente depois de decidirem que têm sentimentos sérios um pelo outro. Romeu e Julieta casam-se, em parte, para poderem consumar o casamento. Mesmo a própria linguagem tem o sexo em alta estima: A frase "fazer amor" significa "ter relações sexuais", como se fosse a única maneira verdadeira de expressar o amor.

Na minha aula de Saúde no secundário, passámos dois meses a discutir o sexo. Estudámos diagrama após diagrama de partes do corpo que não conhecíamos, analisámos com detalhes meticulosos o vasto leque de doenças infeciosas com que os nossos parceiros nos poderiam brindar e falámos sobre como a única forma garantida de evitar uma gravidez é a prática da abstinência.

Durante todo esse tempo ouvimos muitas garantias de que não fazer sexo não tem nada de errado. Mas em nenhuma dessas aulas ouvi as palavras: "Não querer sexo não tem nada de errado."

Afinal de contas estávamos numa sala cheia de adolescentes de 16 anos prestes a descobrirmo-nos como seres humanos adultos. A minha professora de Saúde simplesmente presumia que nós queríamos sexo. Como não?

Mas, durante as interações com amigos, eu vi os resultados reais de todo esse tempo passado nas aulas a olhar para desenhos de sistemas reprodutores. Uma amiga íntima da escola mandou-me uma mensagem na manhã seguinte a ela e o namorado terem feito sexo pela primeira vez. Ela dizia que se sentia estranha, mudada de alguma forma.

Outra amiga resolveu atualizar--me sobre o estatuto do seu relacionamento mais recente: "Ele queria que a sua primeira vez fosse comigo, diz que me ama, que somos almas gémeas."

Durante o furacão Sandy, fiquei sentada com uma dúzia de colegas num quarto sem eletricidade no nosso dormitório na baixa de Manhattan e jogámos à verdade ou consequência sem as consequências. Quase todas as perguntas foram sobre sexo ("Fizeste sexo oral no último mês?"), como se nós não conseguíssemos pensar noutra coisa.

Toda aquela conversa sobre sexo tinha-me deixado totalmente preparada para o despertar do meu próprio desejo sexual. Eu esperava o dia em que ao olhar para alguém pensasse: "Uau, esta pessoa é muito atraente."

No entanto, numa página do meu diário do ano anterior, eu tinha escrito: "Eu não pareço sentir-me atraída por ninguém e não entendo porquê". Lembro-me de estar deitada no chão da sala de estar dos meus pais a ouvir os Smiths e de pensar que havia alguma coisa de muito errado comigo.

As minhas amigas soltavam exclamações de deslumbramento ao verem fotografias de celebridades do sexo masculino em tronco nu que me deixavam indiferente. Elas sonhavam com cenas de amor com vários colegas. Os meus sonhos eram todos sobre chumbar a alguma cadeira ou apocalipses com zombies.

Não me lembro onde vi pela primeira vez a palavra "assexual" - algures no Tumblr, imagino. Mas, durante o meu segundo ano de faculdade, numa cadeira chamada Abordagens a Estudos sobre Género e Sexualidade, lemos um artigo de Anthony F. Bogaert, psicólogo e professor da Universidade Brock, em Ontário no Canadá, que tentava definir a assexualidade e argumentar a favor da sua legitimidade como uma orientação sexual. Só depois de ter conversado com uma amiga que se identificava como assexual é que eu percebi o quanto o termo se identificava comigo.

"Eu só acho que o romance não tem necessariamente de envolver sexo", disse ela.

E aquilo fez sentido para mim. Eu sentia vontade de me envolver romanticamente com certas pessoas, mas essa vontade não incluía o sentir desejo sexual por elas.

Na época, eu tinha tido apenas duas relações amorosas que tinha considerado sérias. O sexo desempenhara um papel central na primeira. Eu conhecia o rapaz da escola, embora só tivéssemos começado a namorar no verão depois de termos terminado o ensino secundário. Eu aceitei gentilmente os seus avanços. Ele era mais delicado e atencioso do que a maioria dos rapazes com quem eu tinha interagido até então e estava ansiosa por ter uma relação romântica, convencida de que isso iria despertar a besta sexual que presumia ter dentro de mim.

Para ele, a atração física e emocional estavam interligadas. Quanto mais profundamente envolvidos nos tornámos fisicamente, mais a sério ele levava a relação. Ele proferiu o seu primeiro "amo-te" enquanto estávamos envolvidos em jogos amorosos, seminus. Depois de, finalmente, termos tido relações sexuais, ele convidou-me para conhecer a sua família alargada na véspera de Natal.

Na manhã seguinte, enquanto tomava um café no McDonald"s mandei uma mensagem a uma amiga: "Não me sinto diferente."

A partir de então, as noites em que não tínhamos qualquer tipo de relações sexuais tornaram-se raras. Sempre que regressava de uma visita de fim de semana à sua faculdade a norte do estado, passava o resto do dia na cama, sentindo-me infeliz com ele e comigo, embora não conseguisse explicar porquê.

Depois de termos acabado comecei a namorar uma rapariga do Midwest que tinha conhecido online. A nossa relação consistia em conversas diárias no Facebook e em vermos televisão a longa distância.

Quase nunca falávamos de sexo, exceto para debatermos sobre o tema em termos teóricos, como algo que acontecia às outras pessoas. A nossa relação era toda palavras em ecrãs de computador, toda piadas e abertura emocional e stickers amorosos do serviço de mensagens do Facebook.

Três meses e meio depois do início da nossa relação, eu passei s dias nos subúrbios de Chicago com ela. Não fizemos nada de fisicamente mais íntimo do que darmos as mãos, beijarmo-nos ou dormirmos uma sesta juntas.

Voltei para casa com uma intensa sensação de alívio. Aquela era a relação que eu queria. Uma relação em que o sexo não era visto como necessário ou como indicador de uma relação saudável, mas o oposto: uma relação em que o sexo não era obrigatório. Sentia-me mais contente com isso do que pensava ser possível.

Em última análise, a longa distância foi o nosso fim e, depois de termos terminado, tive uma série de encontros através do OkCupid com pessoas que se identificavam como pertencendo ao grupo dos assexuais. Passei horas a navegar no sítio Asexual Visibility and Education Network, comparando as experiências dos outros com a minha própria. A assexualidade começou a fazer sentido para mim de uma forma que a sexualidade não fazia.

As pessoas a quem explico a assexualidade têm muitas vezes dificuldade em pensar na atração sexual e na atração romântica como sentimentos inteiramente distintos. Para muitos dos que experimentam ambos os tipos de atração - e certamente para grande parte dos meios de comunicação - sexo e romance são indissociáveis, como champô dois-em-um e creme condicionador.

Mas para quem se identifica quer como assexual quer como não-romântico, eles são mais como frascos separados de champô e condicionador. Eles podem funcionar bem juntos e, às vezes, é o que acontece, mas ter um não significa necessariamente que se tenha o outro.

Essa distinção, entre o sexual e o romântico, entre o físico e o emocional, é algo que eu acabo sempre a explicar cada vez que me assumo perante alguém. A assexualidade, digo às pessoas, não é necessariamente uma falta de desejo de se ter uma relação com alguém. Não é o celibato e não é uma escolha. É simplesmente uma falta de atração sexual.

Compreender e aceitar isso pode abrir a porta para experiências de amor mais diversificadas. Dá-nos permissão para dizer: "Sim, algumas pessoas querem fazer sexo e isso está muito certo, mas eu não sinto esse tipo de atração pelas outras pessoas."

E não temos de acreditar que sofremos de algum tipo de patologia por sermos assim. As pessoas que querem experimentar unicamente o amor platónico, não-sexual, dispõem de uma comunidade em que os outros as entendem e não dizem: "Provavelmente ainda não encontrou a pessoa certa."

No início do meu último semestre, o Centro LGBTQ [iniciais de lesbian, gay, bisexual, transgender e queer (lésbicas, gays, bissexuais, transgénero e queer, alguém que se pode identificar com uma ou várias das orientações anteriores)] da minha escola acolheu um novo grupo chamado Aces e Aros, que discute as identidades que se inserem no espetro dos assexuais e dos não--românticos. Senti uma repentina sensação de pertença durante a primeira reunião e passei a maior parte dela acenando vigorosamente, sentindo-me estranhamente emocionada ao ouvir os outros participantes que partilhavam as suas experiências.

Ao pensar em mim como vagamente "pan-romântica" (romanticamente atraída por pessoas, independentemente do sexo delas) e disposta a chegar a um compromisso com um parceiro no que respeita a sexo, essa reunião tinha-me convencido de que se alguma vez experimentasse o amor, isso teria de acontecer segundo os meus próprios termos, sem qualquer pressão para estar em conformidade com qualquer noção preconcebida do que faz ou não faz parte do amor.

"Sinto que encontrei o meu meio", disse ao meu terapeuta, uma semana depois. Desta vez, a sua resposta foi: "Certo, fale-me mais sobre isso".

 

fonte:http://www.dn.pt/i

Autoria e outros dados (tags, etc)

por adm às 09:09




Pesquisar

Pesquisar no Blog